segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O papel do pai real 
Sem reabrir o debate – absolutamente legítimo – sobre a pertinência da posição falocêntrica defendida por Freud, cabe lembrar que para ele a questão fundamental é saber como se opera, na menina, a passagem da fase “masculina” à “feminilidade normal” .
Embora as teorias de Freud sobre a feminilidade tenham sido objeto de inúmeros debates e controvérsias, pouco se diz sobre a masculinidade. Sobre esta questão, observa-se um inquietante silêncio, como se o fato de possuir um pênis constituísse em si uma garantia, espécie de salvo-conduto, permitindo a passagem “natural” da fase masculina à masculinidade. Ainda que o menino deva passar pelas fases do desenvolvimento com seus diversos percalços, a questão do “tornar-se menino” nunca foi objeto de grande altercações. Entretanto, este processo é bastante complexo.
Não se pode compreender a aquisição da masculinidade sem analisar a relação do filho com seu pai real, ou seja, com o personagem que permite ao sujeito – menino ou menina – de dizer (ou não) num segundo tempo, que ele de fato teve um pai. Não nos referimos aqui, evidentemente, ao pai como função, ao Nome-do-Pai, que certamente esteve presente, pois o sujeito se constituiu; o problema tampouco é compreender em que medida a realidade da presença física do pai implica na sua presença simbólica. Se feminino e masculino são as duas vertentes do falo, nos referimos àqueles que, a partir da inscrição na função fálica, se posicionaram no simbólico como homem.
A referência ao pai real é central em Freud: a relação pessoal que cada um tem com Deus reflete a “relação com o pai em carne e osso” ; da mesma forma, o protótipo do demônio forjado pelo sujeito se origina na relação com o pai ; o superego sádico de Dostoievski é atribuído a um pai na realidade particularmente cruel e violento.
Ao pai cumpre também a tarefa de substituir a mãe na proteção da criança pelo resto da infância contra os perigos de mundo externo como lemos em O Futuro de uma Ilusão. Do pai protetor da infância – o onipotente “pai herói” profundamente admirado, por vezes idolatrado, mas também temido – ficará a “nostalgia do pai”, sentimento que coincide com a necessidade de proteção ligada ao desamparo humano; e a origem do pai como protetor se encontra no pai da horda primária.
Ou seja, o pai que protege a criança no início da vida reatualiza o pai que, na aurora da humanidade, protegia os membros da horda contra os perigos do mundo exterior. No entanto, a partir de um determinado momento – ao longo da era glacial, continua Freud – quando as mudanças do meio ambiente superara a capacidade protetora do pai e este último não cumpria mais seu papel, o pai protetor passou a configurar o alvo por excelência da angústia do grupo: foi a interiorização do medo do real como “angústia do pai” que possibilitou a maturação do desejo de morte contra ele conferindo-lhe, ao mesmo tempo, sua função simbólica.
Para Freud, o complexo paterno que culmina com o assassinato do pai – “o crime principal e primevo da humanidade” – constitui o ponto onde se unem ontogênese e filogênese, a história de cada um e a História da humanidade: a morte do pai que cada criança tem que levar a cabo nada mais é que a reatualização da morte do pai primevo pelas “crianças” da horda primária. Na história de cada sujeito, o desejo de morte do pai se origina bem antes da situação edipiana, no momento em que ele aparece na cena do real fazendo “do desprezar uma experiência da qual ninguém está ao abrigo. 
Identificação e masculinidade
A relação do menino com o pai é, como se sabe, marcada pela ambivalência. No complexo de Édipo em sua forma mais completa, positiva e negativa, sob a égide da bissexualidade constitucional, duas vertentes se opõem e se conjugam: de um lado, uma atitude afetuosa para com o pai; de outro, uma hostilidade igualmente intensa em relação a ele, que se quer eliminar como rival. Ao final do complexo, estas tendências – que deverão ser recalcadas – se agruparão para produzir uma identificação: para aspirar a ser como o pai, é necessário parar de temê-lo.
Entretanto, no caso do recalcamento falhar, as tendências pulsionais afetuosas retornam como moções intoleráveis para o ego, exatamente por reatualizar a “atitude afetuosa feminina para com o pai”, reativando no mesmo movimento, a ameaça de castração. É isto que nos relata Freud através dos casos do Homem dos lobos, do Homem dos ratos, de Schreber e de Pequeno Hans: boa parte dos problemas psíquicos apresentados por estes sujeitos se devia ao retorno de elementos recalcados percebidos pelo ego do sujeito como “femininos”. Talvez por esta mesma razão, a paranóia, assim como algumas formas de perversão, exibem uma “preferência” pelo sexo masculino: a projeção de moções homossexuais não-integradas permite ao sujeito tratar um perigo pulsional interno como se fosse externo.
A angústia de castração, “no interesse de preservar sua masculinidade” , levará o menino a recalcar o hostilidade dirigida ao pai. Pode acontecer que o deslocamento para um objeto substitutivo constitua a única possibilidade encontrada para lidar com a hostilidade. É o que acontece na fobia: graças ao objeto fóbico, a criança pode dar livre vazão à hostilidade nascida da rivalidade com o pai, mas também à afeição dirigida ao pai, pois o objeto temido é também procurado.
Pode acontecer também, quando o pai não se torna o alvo da angústia da criança, que o mundo seja percebido como uma ameaça. Na origem da angústia de algumas pessoas, que se traduz por um “medo de tudo”, um desamparo estrutural, encontra-se uma imagem de pai que nunca foi percebida como sendo, por um lado, o pai que proibe – sabe-se de onde o perigo vem – e, por outro lado, o pai que protege: nestes sujeitos, a “nostalgia do pai” não se constituiu.
Outro elemento a considerar na construção da masculinidade é o modo como o pai investe o filho, e o desejo do pai por ele. Tornar-se pai é correr o risco de pressentir, tal como Laios, aquele que vai desejar sua morte; aceitar que seu filho seja seu sucessor, legar-lhe sua função, pressupõe que o pai saiba que o lugar que ele ocupa foi ocupado anteriormente por outro, e que seu filho, assim como ele, só o ocupará de modo transitório.
Ser apenas um elo na cadeia de gerações significa não apenas descobrir-se mortal, mas também compreender sua morte como conseqüência de uma lei universal, e não como uma punição retardada por desejos edipianos proibidos. Isso que dizer que na relação pai/filho se reatualizam também as ambivalências que marcaram a relação deste pai com seu próprio pai. Finalmente, a relação com o pai será, de alguma forma, o protótipo das relações do sujeito com outros homens.
Uma falha do pai em sua função de objeto identificatório – provavelmente devido a conflitos identificatórios deste pai com o seu próprio pai, um conflito transgeneracional – impede que o filho experiencie o complexo de Édipo em sua forma completa, o que terá conseqüências na construção de sua masculinidade. A clínica nos informa destas mudanças. Trata-se de pessoas que, embora sempre tenham tido uma prática heterossexual, apresentam, sob as mais diversas formas, fantasias homossexuais que podem ser definidas como ego-distônicas: embora as pulsões homossexuais tenham acesso à consciência, são experimentadas como totalmente insuportáveis, e a realização destas fantasias seria simplesmente inconcebível.
Quase sempre a procura de análise se deve ao medo deste “homossexualismo” vivido como um sintoma. A análise revela que em muitos destes casos o homossexualismo em questão é a mesma do período edipiano, que não pôde ser “vivida” com o pai. Se estas fantasias – que traduzem uma busca de masculinidade – são tão insuportáveis para o sujeito, é por serem vivenciadas como na relação edipiana, logo proibida, não com a mãe mas com o pai.
De maneira geral, alguns fantasmas não-integrados ao ego e que podem ser percebidos como passivos, logo ligados à feminilidade, devem ser compreendidos como o retorno da corrente afetuosa em relação ao pai, que reativaria uma vez mais a ameaça de castração: é por isto que a posição masculina é tão freqüentemente ameaçada e que a feminina, segundo Freud biologicamente destinada às crianças do sexo feminino, é tão temida pelos homens.
Isto se torna particularmente claro nos adolescentes: entre os meninos é comum a fantasia de que se um deles tem na relação homossexual o papel passivo, é “mulher”; entre as meninas, a homossexual não é comparada a um homem. A distinção entre duas modalidades identificatórias que freqüentemente aparecem superpostas pode ajudar na compreensão desta dinâmica: de um lado, o sentimento que se estabelece bem cedo e que se traduz por: “eu sou menino” ou “eu sou menina”; de outro lado, o sentimento, bem mais complexo, cuja dinâmica só se completará na adolescência, que se traduz por “eu sou masculino” ou “eu sou feminina”.
Masculinidade: uma constante construção
O trajeto que leva o menino da posição masculina à masculinidade -resultado de um longo percurso que se constrói em um espaço político e social, através de diversos rituais e provas de iniciação – é extremamente complexo, e o fantasma de não a alcançar é uma presença constante. Por esta razão, é frágil e constantemente ameaçada: tem de se “forçar”, de alguma forma, seu desenvolvimento, sob pena de que ela não se manifeste. Não é por acaso que tantos tabus, proibições e expedientes são necessários para salvaguardar a masculinidade do perigo de contaminação pela feminilidade.
A relação do sujeito com seu próprio pai, ou com aquele que assume este papel, será decisivo para o modo como ele terá acesso as representações simbólicas do masculino: a identificação ao pai nos dá a chave para a compreensão da masculinidade. É no encontro com o pai, seja qual for o registro em que este se encontre – através dos avatares dos processos identificatórios do filho, dos investimentos do pai em relação ao filho, das particularidades do sistema social no qual o sujeito se encontra inserido – que se deve procurar compreender a aquisição da masculinidade bem como suas diferenças “qualitativas”.
A construção da masculinidade é um trabalho constante e a presença do pênis – central na formação imaginária do Eu e determinante para o trajeto identificatório assim como para a construção dos ideais – não constitui nenhuma garantia tangível contra o fantasma de castração.

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